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Visitantes Poéticos

segunda-feira, 11 de julho de 2016


Que a felicidade não dependa do tempo, nem da paisagem, nem da sorte, nem do dinheiro. Que ela possa vir com toda simplicidade, de dentro para fora, de cada um para todos. Que as pessoas saibam falar, calar, e acima de tudo ouvir. Que tenham amor ou então sintam falta de não tê-lo. Que tenham ideais e medo de perdê-lo. Que amem ao próximo e respeitem sua dor. Para que tenhamos certeza de que: “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”. 

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O RETRATO FIEL


Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!
Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.
Toda minha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;
naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.
Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.
Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.


GILKA MACHADO

quinta-feira, 28 de abril de 2016

TODA POESIA





Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. 
Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. 
Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. 
Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. 
Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem. 
Traduzir-se uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte 
Será arte? 

(Ferreira Gullar)

sábado, 2 de abril de 2016

Poema para Iludir a Vida


Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes, ou asa de anjo caída num pau.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.


Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

domingo, 24 de janeiro de 2016

Rumos



Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso procurar
O velho paraíso que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmentida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

(Miguel Torga)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Versos de Natal


Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

 MANUEL BANDEIRA 
In Lira dos cinquent’anos, 1940 

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Irmão, Irmãos

Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos. 
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.

São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,
o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?
São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.
Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Inconfesso Desejo



Inconfesso Desejo 
Carlos Drummond de Andrade

Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Hoje e Intensamente...



Hoje sei que vivi intensamente,
Hoje sinto que a vida é frágil,
Hoje não vivo como antigamente,
Hoje não sou mais forte, nem tão ágil...

Hoje sou mais sensível ao que se sente,
Hoje me amedronta qualquer loucura,
Hoje a eternidade é um de repente,
Hoje conhecimento não é procura...

Hoje a idade me pega e me tortura,
Hoje a noite se faz durante o dia,
Hoje sou consciência e lisura
Hoje a vida é amor e poesia...


Marco A. Alvarenga

terça-feira, 9 de junho de 2015

Despedida


Por mim, e por vós, e por mais aquilo,
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? – me perguntarão.
- Por não Ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? Tudo. Que desejas? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação…
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra…)

Quero solidão.


Cecília Meireles

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A Nossa Vitória de cada Dia

Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.

Clarice Lispector, in 'Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres'

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O TEMPO

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Mário Quintana

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014


“As pessoas não estão neste mundo para satisfazer as nossas expectativas,
 assim como não estamos aqui para satisfazer as delas.
 Temos que nos bastar,
nos bastar sempre,
e quando procuramos estar com alguém,
 temos que nos conscientizar de que estamos juntos porque gostamos,
 porque queremos e nos sentimos bem,
nunca por precisar de alguém.
As pessoas não se precisam,
 elas se completam,
 não por serem metades,
 mas por serem inteiras,
 dispostas a dividir objetivos comuns,
alegrias e vida.”


(Mario Quintana)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Um Beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto...

Olavo Bilac

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Beber dos Ventos


Ama-me então do jeito que quiseres
E que souberes amar, mas, ama-me
No puro encanto da ideia sublimada...

E se estiveres mal acostumado
Por receberes de mim versos insanos
Pensa que já não viverei mais tantos anos...

Que a menor parte é essa que te deixo
Herdeiros tenho atados em meu peito
Feitos por mim da minha alma e corpo...

Mas se me amares, outros sofrimentos
Irão falar-te com certeza à noite
Quando por mim hás de beber os ventos!

Dorothy de Castro

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Suspensas Fugas


Para pensar em ti todas as horas fogem:
o tempo humano expira em lágrima e cegueira.
Tudo são praias onde o mar afoga o amor.

Quero a insônia, a vigília, uma clarividência
deste instante que habito – ai, meu domínio triste!,
ilha onde eu mesma nada sei fazer por mim.

Vejo a flor; vejo no ar a mensagem das nuvens
- e na minha memória és imortalidade -
vejo as datas, escuto o próprio coração.

E depois o silêncio. E teus olhos abertos
nos meus fechados. E esta ausência em minha boca:
pois bem sei que falar é o mesmo que morrer:
Da vida à Vida, suspensas fugas.

(Cecília Meireles)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014





“O caminho que eu escolhi é o do amor.
 Não importam as dores, as angústias, nem as decepções que eu vou ter que encarar. Escolhi ser verdadeira. 
No meu caminho, o abraço é apertado, o aperto de mão é sincero, por isso não estranhe a minha maneira de sorrir, de te desejar o bem.
 É só assim que eu enxergo a vida, e é só assim que eu acredito que valha a pena viver.” 

Clarice Lispector

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Noturno


em todo acesso ao novo dia
estou acordado
numa insônia compulsória
que revel
contratei com a vida
numa dor de paixão
em tudo que eu faço
e uma alma atemporal
sou persuadido
pelo vicio do silêncio
de emoções implodidas
não se enganem com
minha aparente inércia
não preciso mover
nem os cílios
para navegar

LUCIANO LOPES

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Tudo que sei...


Tudo que sei nesse instante
É o que minha alma sente...
E como ela sente...
Seria eu a sentir?
Ou seria minha alma
A me sentir?
Ou seria minha a alma
De tantos ‘eus’
De todos os instantes?
Tudo o que sei desse instante
É que um dos meus ‘eus’
Não quer que vá embora
O que nem mesmo chegou
Mas minha alma já sente...

Dú Karmona

Os versos que te fiz



Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Noites


Quando as noites não têm estrelas
E o céu se veste de breu
Resta o frio que fere alma desnuda.

Incauta, sigo o coração
Na noite calada, onde me busco em vão
Perco-me dentro de mim...
Neste tempo que se esvai
Deixa-me somente a madrugada
A alma dum corpo que já não sinto.

Nas noites perturbantes de solidão
Quando o céu se veste de breu
E as noites não têm estrelas
Escrevo do delírio que invento
Oclusa, na minha solidão.

Cecília Vilas Boas

terça-feira, 27 de maio de 2014

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

(Paulo Leminski)

sexta-feira, 28 de março de 2014

VALSINHA

Um dia ele chegou tão diferente
do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente
do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto
quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto,
pra seu grande espanto
convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo
não queria ousar
Com seu vestido decotado
cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
foram para a praça
e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança
que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos
como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Infinita Saudade


Saudade é não saber como vencer a
Amargura de um silêncio!
É chorar todos os dias sentindo o
Vazio na alma... É tentar compreender por quê?
É ouvir melodias e pensar que poderia
Oferecer-te para que se lembres de mim e
Sintas a minha ausência...                        
É não saber o que fazer de todos os momentos
Vividos ao teu lado e que hoje são apenas
Lembranças...
Não sei descrever os meus sonhos eu só sei
Que tu estás em todos eles.
E ao acordar a emoção dessa infinita saudade!
Eu amo-te!

(Celina Vasques)

sábado, 7 de dezembro de 2013

Tenta esquecer-me

Tenta esquecer-me… Ser lembrado é como evocar Um fantasma… Deixa-me ser o que sou, O que sempre fui, um rio que vai fluindo… Em vão, em minhas margens cantarão as horas, Me recamarei de estrelas como um manto real, Me bordarei de nuvens e de asas, Às vezes virão a mim as crianças banhar-se… Um espelho não guarda as coisas refletidas! E o meu destino é seguir… é seguir para o mar, As imagens perdendo no caminho… Deixa-me fluir, passar, cantar… Toda a tristeza dos rios É não poder parar! (Mário Quintana)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Soneto de Amor




Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!


(José Régio)

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A Miragem



Não direi que a tua visão desapareceu dos meus olhos sem vida
Nem que a tua presença se diluiu na névoa que veio.
Busquei inutilmente acorrentar-te a um passado de dores
Inutilmente.
Vieste - tua sombra sem carne me acompanha
Como o tédio da última volúpia.
Vieste - e contigo um vago desejo de uma volta inútil
E contigo uma vaga saudade…
És qualquer coisa que ficará na minha vida sem termo
Como uma aflição para todas as minhas alegrias.
Tu és a agonia de todas as posses
És o frio de toda a nudez
E vã será toda a tentativa de me libertar da tua lembrança.

Mas quando cessar em mim todo o desejo de vida
E quando eu não for mais que o cansaço da minha caminhada pela areia
Eu sinto que me terás como me tinhas no passado -
Sinto que me virás oferecer a água mentirosa

Da miragem.
Talvez num ímpeto eu prefira colar a boca à areia estéril
Num desejo de aniquilamento.
Mas não. Embora sabendo que nunca alcançarei a tua imagem
Que estará suspensa e me prometerá água
Embora sabendo que tu és a que foge
Eu me arrastarei para os teus braços.


(Vinícius de Moraes)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Não deixe o amor passar


Não deixe o amor passar
Quando encontrar alguém
e esse alguém fizer
seu coração parar
de funcionar por alguns segundos,
preste atenção:
pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Se os olhares se cruzarem e,
 
neste momento,
houver o mesmo brilho intenso entre eles,
fique alerta:
pode ser a pessoa
que você está esperando
desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso,
 
se o beijo for apaixonante,
e os olhos se encherem
d’água neste momento,
perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o primeiro e o último
 
pensamento do seu dia
for essa pessoa,
se a vontade de ficar juntos
chegar a apertar o coração,
agradeça:
Deus te mandou um presente:

O Amor.
 

Por isso, preste atenção nos sinais
 
- não deixe que as loucuras do dia-a-dia
o deixem cego para a melhor coisa da vida:

O Amor.

(Carlos Drummond de Andrade) 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Inicial


O dia não é hora por hora.
É dor por dor,
o tempo não se dobra,
não se gasta,
mar, diz o mar,
sem trégua,
terra, diz a terra,
o homem espera.
E só
seu sino
está ali entre os outros
guardando em seu vazio
um silêncio implacável
que se repartirá
quando levante sua língua de metal
onda após onda.

De tantas coisas que tive,
andando de joelhos pelo mundo,
aqui, despido,
não tenho mais que o duro meio-dia
do mar, e um sino.

Eles me dão sua voz para sofrer
e sua advertência para deter-me.
Isto acontece para todo o mundo,
continua o espaço.

E vive o mar.

Existem os sinos.

[Pablo Neruda]

sábado, 26 de outubro de 2013

Saudade


Saudade de tudo!...

Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez ainda hoje espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!

Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo,
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo...

(Guimarães Rosa)

Ingênuo enleio

Ingênuo enleio de surpresa,
Sutil afago em meus sentidos,
Foi para mim tua beleza,
A tua voz nos meus ouvidos.

Ao pé de ti, do mal antigo
Meu triste ser convalesceu.
Então me fiz teu grande amigo,
E teu afeto se me deu.

Mas o teu corpo tinha a graça
Das aves...Musical adejo...
Vela no mar que freme e passa...
E assim nasceu o meu desejo.

Depois, momento por momento,
Eu conheci teu coração.
E se mudou meu sentimento
Em doce e grave adoração.

(Manuel Bandeira)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O resto é silêncio


E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos 
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...

Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...

Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...
Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...

[J.G.de Araujo Jorge]

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Borbulhante


Guardei meu poema dentro de uma bolha de sabão.
Como não ficar seduzida
pela circunferência lisa e transparente,

onde o arco-íris passeia docemente
e morre de amores pela espuma colorida?

Acomodado na nova moradia,
o poema suspirou e adormeceu.
Quando acordou, já não mais me pertencia.

A bolha de sabão se deslocara
e o poema apaixonado que eu criara
descobriu de repente que era teu


(Flora Figueiredo)

domingo, 20 de outubro de 2013

A Palavra Mágica

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

(Carlos Drummond de Andrade)

Parabéns a todos os Poetas!!
20/10/13 - Dia do Poeta

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Noturno




hoje eu precisava dar atenção
aos meus personagens
dar banho no meu cão
lavar meu all star
fazer cócegas na minha filha
ligar para meus amigos
meus amores antigos
chorar um pouco
rir de minhas rugas
aparar meus pelos brancos
procurar a lua
achar frases que fiz
e que nunca copilaram um poema

respeitar meu devoto silêncio

encontrei uma frase num caderninho
de quando eu era só um menino grande
(que nada haveria de me furtar)
que amarelado asseverava
-tentar ser uma pessoa melhor
agora a noite tomar um carmenère
e sou só sorriso para essa página

minha essência...não é infeliz não...

(Luciano Lopes)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Bálsamos do Silêncio

Sempre que o silêncio acorda
as brisas suaves aconchegam
as minhas memórias,
delas colho o néctar puro
nos ombros do futuro,
por onde descalça
me visto
da voz
que os fios de luz
me segredam,
as mais infinitas verdades
do hoje,
sem naufrágios ou subterfúgios!
A veracidade é alva não habita o escuro…
O silêncio é o poderoso amigo da claridade
que habita o âmago da firmeza do destino!


(Ana Coelho)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O resto é silêncio




E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...
Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...
Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...
Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...

(J.G.de Araujo Jorge)

Ninguém me habita


Ninguém me habita. A não ser
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para que eu, vivendo agora,
possa merecer na outrora.

Ninguém me habita. Sozinho,
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiúras que me fascinam,
belezas que me endoidecem.


(Thiago de Mello)

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Tomara


Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz

E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais


(Vinicius de Moraes)

Poemas ao Acaso



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