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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Duas ou tres coisas


Duas ou três coisas que eu sei da vida
Posso até te aconselhar
Antes de mais nada esqueça os conselhos
E deixa o coração mandar

Duas ou três coisas que eu sei da estrada
Posso até te sugerir
Não vai pela sombra não, deixa o dia
Deixa a luz te colorir

Quem já viajou no bonde do sonho
Sabe onde ele vai parar
Salta muito antes do fim da linha
Na curva do mar

Duas ou três coisas que eu sei do mundo
Eu podia te ensinar
Mas cada mergulho é um
Vá bem fundo e aprenda logo a nadar

Duas ou três coisas guardo comigo
Que eu podia te contar
Mas quem tá com deus não corre perigo
Vá onde o vento te levar

(Affonso Romano de Sant’Anna)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Quem ama inventa!

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...

E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...

Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...

Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!

(Mário Quintana)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Decoração de Natal

Enfeite a árvore de sua vida
com guirlandas de gratidão!

Coloque no coração laços de cetim rosa
amarelo, azul, carmim,
Decore seu olhar com luzes brilhantes
estendendo as cores em seu semblante
Em sua lista de presentes
em cada caixinha embrulhe
um pedacinho de amor,
carinho, ternura, reconciliação, perdão!

Tem presente de montão no estoque
do nosso coração e não custa um tostão!

A hora é agora! Enfeite seu interior!
Seja diferente! Seja reluzente!

(Cora Coralina)

sábado, 17 de dezembro de 2011

Suspensas fugas


Para pensar em ti todas as horas fogem:
o tempo humano expira em lágrima e cegueira.
Tudo são praias onde o mar afoga o amor.

Quero a insônia, a vigília, uma clarividência
deste instante que habito – ai, meu domínio triste!,
ilha onde eu mesma nada sei fazer por mim.

Vejo a flor; vejo no ar a mensagem das nuvens
- e na minha memória és imortalidade -
vejo as datas, escuto o próprio coração.

E depois o silêncio. E teus olhos abertos
nos meus fechados. E esta ausência em minha boca:
pois bem sei que falar é o mesmo que morrer:
Da vida à Vida, suspensas fugas.

(Cecília Meireles)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Poderes

Tu poderias, sim, amar-me inteira!
Sermos nós dois no mundo e mais ninguém,
Pois mais amor que o amor o meu contém,
como os botões florindo uma roseira.

Eu poderia ser tua primeira!
Quem sabe aquela que te quis mais bem?
A de verdade, a louca e mais além,
Eu poderia ser a derradeira!

Poder te dar o mar, o céu e a terra,
Ar que respiro, a luz, a primavera,
Sentir teu peito em mim, num só compasso.

Poder te amar o amor mais altruísta,
Não ser da vez, apenas a conquista,
E eternizar na morte o teu abraço!

(Lílian Maial)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Amo em silêncio


Carrego dentro de mim este amor por você
Um segredo que a sete chaves estou a esconder
Tenho um local somente meu para te encontrar
É quando a noite chega e você vem me amar

Você é a sombra que não deixo ir
É a lua que me espera para dormir
É como estrelas que fazem minha noite brilhar
Quando meu dia está triste por você não estar.

Passeio com você escondida em meu coração
Esperando apenas o momento de nos encontrar
Amo em silêncio, carrego oculto esta paixão.

Já não é possível mais dos outros te esconder
Pois em meus olhos todos podem te ver
É uma luz que reluz onde quer que eu esteja.

(Ataíde Lemos)

domingo, 27 de novembro de 2011

Alquimia

Rasgo meu peito, aflito,
Busco um refúgio onde me esconder,
Dessa coisa chamada desejo,
Desse sonho que teimo em romper.

Tento disfarçar angústias vividas,
Não me vejo em contraste com o medo,
Sou claro nos meus propósitos,
Não tenho nenhum segredo.

Me entrego facilmente ao amor,
Talvez um pouco imediatista,
Quem sabe receio de perder...

Ou seja, uma constante dor,
Que trago nesse peito alquimista,
Que insiste tanto em te querer.

(Marco Antonio de Alvarenga)

sábado, 26 de novembro de 2011

Ausência

Nem sempre me sinto ausente,
Que minha alma perene,
Exausta de frustrações,
Exalta do meu corpo e se faz presente,

Não me sinto ausente,
Quando em busca do inconsequente,
Meus truques e artimanhas,
São fantasias em mente.

Me sinto ausente,
Quando em busca do amor verdade,
Encontro amores inexistentes,

Sinto ausente,
Quando sua ausência,
Se faz presente.

(Marco Antonio de Alvarenga)

Momentos capturados


Momentos capturados onde me encontro
os outros desvanecem-se
na ilusão e nas palavras
e são nestes parcos silêncios que relembro
o que já foste para mim

A mágoa desvanece-se no tempo
como se os gestos e as palavras
nunca o tivessem sido
e um amor que nunca foi meu
tivesse sido tornado sinónimo de verdade.

Deixáste-me assim
Sozinha com a ilusão
até essa bastou com um gesto
para saber que não me pertencia

Que ninguém mais precise
tanto da alegria de viver
a serenidade de um amor
como esta sede infinita
que tive de ti!

Ah! - Não quero viver debruçada neste amor
nem de andar em busca de memórias perdidas

Tu!-Insensato que me perdeste
não mais viveste a história...
de um grande amor
Ficáste perdido
Nas brumas do tempo!

(Maria Valadas)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Incertezas

Toda a incerteza
Toma conta do corpo ténue.
Exclamam
Pelas fontes águas agitadas
Balançam em alvoroço
Numa corrente sem aviso…

Todo o peito
Se esfarrapa pelos impulsos
Trémulos,
Um som forte
Mata toda a exactidão
Que incessantemente
Procuro destapar…

Decaio
Mais um pouco
Nesta penumbra nublada
Onde o sol se despede
Sem nunca ter chegado!

(Ana Coelho)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Canção em campo vasto

Deixa-me amar-te com ternura, tanto
que nossas solidões se unam,
e cada um falando em sua margem
possa escutar o próprio canto.

Deixa-me amar-te com loucura, ambos
cavalgando mares impossíveis
em frágeis barcos e insuficientes velas,
pois disso se fará a nossa voz.

Ajuda-me a amar-te sem receio:
a solidão é um campo muito vasto
que não se deve atravessar a sós.

(Lya Luft)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Cúmplice

Bebe, sacia a tua sede, lembranças
Seca o sereno da vida
Escolhe caminhos só de ida,
Esquece...

Colhe,
Lambe as feridas do peito
Morre as intrigas, no leito
Clama ao perdão, a razão...

Anda,
Sem direção ou respeito
Busca a medida no terço
Olha a saudade no ar...

Pois que é verdade o desprezo
Põe na caçamba o meu beijo
Deixa essa mágoa passar...

Dá ao coração um cigarro
Traga este último trago
Ama sem medo de errar...

Pois que a paixão é veneno
Mata o ciúme terreno
Morre sem medo de amar...

(Márcia Cristina Lio Magalhães)

domingo, 20 de novembro de 2011

O retrato fiel

Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!
Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.

Toda minha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;
naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.

Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.
Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.

(Gilka Machado)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Dueto eterno

É quando me agarras as palavras
pela cintura
e me envolves na dança de um poema
que me desarmas.

Em tom de tango
contornas-me o corpo
e resgatas-me a alma
num movimento sublime e intenso.

O fado dos teus lábios nos meus
é o dueto eterno em que navegamos
neste rio onde te recebo ao sabor da lua.

Tenho sede de ti.
Seca-me a voz quando te respiro
e te sinto ancorado
naquele miradouro à procura de nós.

Não me deixes agora,
devolve-me a esperança
de encontrar aquilo que fomos
e juntos despertarmos o abraço,
o beijo e o prazer de sermos um só.

(Vanda Paz)

Renúncia

Renunciar. Todo o bem que a vida trouxe,
Toda a expressão do humano sofrimento
A gente esquece assim como se fosse
Um vôo de andorinha em céu nevoento.

Anoiteceu de súbito. Acabou-se
Tudo… A miragem do deslumbramento…
Se a vida que rolou no esquecimento
Era doce, a saudade inda é mais doce.

Sofre de ânimo forte, alma intranqüila!
Resume na lembrança de um momento
Teu amor. Olha a noite: ele cintila.

Que o grande amor, quando a renúncia o invade,
Fica mais puro porque é pensamento,
Fica muito maior porque é saudade.

(Carneiro da Cunha)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Mundo Interior

Ouço que a natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
De sol à infima luzerna.

Ouço que a natureza, - a natureza externa, -
Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna
Entre as flores da bela Armida.

E contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro em mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia - e dorme.

(Machado de Assis)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Testemunho

Vida! Caminho deserto onde ando;
Agreste de sentimento amargo...
Vales e ondas, inútil, vai vagando,
Aos pés de mim o amor que trago!

Existência! Não sei eu até quando...
Advirá em águas o grande lago;
Baldadas lágrimas, rio dum afago;
Estrada infinita que vou rogando...

Balbucio demência, já a tanta dor...
Voz oculta em meio à sombra fria,
Já não me vale o temor dum grito.

Brado que não mais ouve o amor
Sob as rochas quietas à luz do dia,
Dentre à luz do sol, que já é mito!

(Poeta Dolandmay)

domingo, 13 de novembro de 2011

Por dois minutos

Os passos estreitos
Dela não cabem nos
Espelhos do tempo.

Imagens escorrendo
Pelas três camadas
Caladas do vidro.
Reflexos desconhecidos
Entre o sonho
E a terra.

Ela é a sua própria
Guerra em mundos outros.
Cansada, pendura na
Cadeira todos os disfarces,
Caminhando nas pontas
Dos pés.

Eterniza o momento
Sem tempo, sendo
Ela,sendo aquela que é
Mas não é.

Por dois minutos,
O descanso do ente,
O ser do/ente,
O ente do ser.

E depois disso
Nada mais foi permanente.
Nem eu,
Nem você.

(Karla Bardanza)

sábado, 12 de novembro de 2011

Reverência

Se não fosse você, eu andaria
a caminho do nada,
pra lugar nenhum.
Eu erraria por entre vagas abertas,
sobre páginas incertas
de um pobre verso comum.

Se não fosse você, eu perderia
a noção do sol e do vento,
de todo e qualquer elemento
que me induzisse à beleza.

Se não fosse você, eu ficaria presa
na trama dos desafetos,
dos amores incompletos
que o mundo encaixa nos cantos.

Se não fosse você, triste seria
e a memória por certo contaria
minha historia na pobreza de um clichê.

.....e eu certamente me demitiria
dos ternos devaneios da poesia.
Que seria de mim, se não fosse você?

(Flora Figueiredo)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces ? – me perguntarão.
- Por não Ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras ? Tudo. Que desejas ? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação…
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra…)
Quero solidão.

(Cecília Meireles)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Nesta Ausência

Nesta ausência que me excita,
tenho-te, à minha vontade,
numa vontade infinita...
Distância, sejas bendita!
Bendita sejas, saudade!

Teu nome lindo...Ao dizê-lo
queimo os lábios, meu amor!
- O teu nome é um setestrelo
na noite da minha dor.

Nunca digas com firmeza
que a mágoa apenas crucia:
a saudade é uma tristeza,
que nos dá tanta alegria!

Passo horas calada e queda,
a rever, a relembrar
as duas asas de seda
do teu langoroso olhar.

Se a mágoa nos não conforta,
por que é que a felicidade
tem mais sabor quando morta,
depois que se faz saudade?

(Gilka Machado)

Canção com parêntesis

Meu coração que voava
ficou surpreso.
A boca se fechou, a música
descaiu num tom menor.
Meu corpo que retornava
ao que nunca tinha sido
(senão com nostalgia)
retoma o que sempre fingiu ser.

Ficamos à espera, minha vida e eu
(sem amargura, mas desconcertadas)
de que apagues os parênteses
e voltes, e te permitas
as ternuras, o encanto, as surpresas
que iluminavam (como os meus)
teus próprios dias.”

(Lya Luft)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Homenagem

CECÍLIA MEIRELES, filha de Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil S.A., e de D. Matilde Benevides Meireles, professora municipal, Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, na Tijuca, Rio de Janeiro. Foi a única sobrevivente dos quatros filhos do casal. O pai faleceu três meses antes do seu nascimento, e sua mãe quando ainda não tinha três anos. Criou-a, a partir de então, sua avó D. Jacinta Garcia Benevides.
"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.
(...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.
Conclui seus primeiros estudos — curso primário — em 1910, na Escola Estácio de Sá, ocasião em que recebe de Olavo Bilac, Inspetor Escolar do Rio de Janeiro, medalha de ouro por ter feito todo o curso com "distinção e louvor".
Diplomando-se no Curso Normal do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em 1917, passa a exercer o magistério primário em escolas oficiais do antigo Distrito Federal. Dois anos depois, em 1919, publica seu primeiro livro de poesias, "Espectro". Seguiram-se "Nunca mais... e Poema dos Poemas", em 1923, e "Baladas para El-Rei, em 1925.Casa-se, em 1922, com o pintor português Fernando Correia Dias, com quem tem três filhas: Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda, esta última artista teatral consagrada. Suas filhas lhe dãp cinco netos.
Publica, em Lisboa - Portugal, o ensaio "O Espírito Vitorioso", uma apologia do Simbolismo.Correia Dias suicida-se em 1935. Cecília casa-se, em 1940, com o professor e engenheiro agrônomo Heitor Vinícius da Silveira Grilo. De 1930 a 1931, mantém no Diário de Notícias uma página diária sobre problemas de educação.
Realiza numerosas viagens aos Estados Unidos, à Europa, à Ásia e à África, fazendo conferências, em diferentes países, sobre Literatura, Educação e Folclore, em cujos estudos se especializou.
Recebe o Prêmio de Tradução/Teatro, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1962.
No ano seguinte, ganha o Prêmio Jabuti de Tradução de Obra Literária, pelo livro "Poemas de Israel", concedido pela Câmara Brasileira do Livro.Seu nome é dado à Escola Municipal de Primeiro Grau, no bairro de Cangaíba, São Paulo (SP), em 1963.Falece no Rio de Janeiro a 9 de novembro de 1964, sendo-lhe prestadas grandes homenagens públicas. Seu corpo é velado no Ministério da Educação e Cultura. Recebe, ainda em 1964, o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro "Solombra", concedido pela Câmara Brasileira do Livro.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Passagens

Poderia ter sentido
o perfume da vida
passando entre as flores
que se encantam,
dissimulando asperezas
nas pétalas umedecidas

Prenderia tua imagem
no acústico de uma sonata,
no calor do sol ressacado
de um verão

O vento em suas rajadas afiadas,
cortará a saudade insuportável,
falando do amor
como quem fala da sede,
da fome, da dor.

(Conceição Bentes)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Fronteira

Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...
Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.

(Tasso da Silveira)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Vício da alma

Eu sou a flor
embebida de orvalho
a inquietude
que alimenta a serenidade
aquele que parte
e deixa saudade
e aquele que fica
depois da partida
eu sou a palavra que falta
daquilo que não têm palavras
o caminho mais curto
de uma estrada sem fim
o que há de mais doce
no sorrir de uma lágrima
eu sou a dor
mais nobre do querer
o silêncio absoluto
que todos querem ouvir
a fronteira imaginária
entre o ser e o sentir
e eu sou a doença
disfarçada de cura
o impulso
necessário do salto
o espaço
preenchido entre os olhares
e o vício
mais íntimo da alma
eu sou o amor ...

(Marcelo Roque)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A Bruxa

Tu andas de alma em alma errando, errando,
como de santuário em santuário.
És o secreto e místico templário,
As almas, em silêncio, contemplando.

Não sei que de harpas há em ti vibrando,
que sons de peregrino estradivário
Que lembras reverências de sacrário
E de vozes celestes murmurando.

Mas sei que de alma em alma andas perdido
Atrás de um belo mundo indefinido
De silêncio, de Amor, de Maravilha.

Vai! Sonhador das nobres reverências!
A alma da Fé tem dessas florescências,
Mesmo da Morte ressuscita e brilha!

(Carlos Drummond de Andrade)

Homenagem

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, nasceu em Itabira do Mato Dentro/MG, em 31 de outubro de 1902.
Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas.
Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil.
O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond, Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934), em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o contrário.
Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente satírico em seu amargor e desencanto, entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar. Vem daí o rigor, que beira a obsessão.
Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor, Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.

"Homenagem de Verso & Prosa a Drummond no dia que se comemoraria seu aniversário"

domingo, 30 de outubro de 2011

A nossa procura

Somos de princípios...
De liberdade de escolha...
somos humanos diferentes...
escrevemos o que a alma escolhe...
sentimos o que o coração mostra...
e deixamos a razão de lado...

Na meiguice do teu rosto parcialmente
coberto por teus cabelos negros...
faz uma demonstração de olhar do mar...
vasto segredo...
imenso poder...

Somos de poesias e flores...
do olhar singelo de uma criança...
e de atitude por vezes mais romântica...
criaturas simbólicas da mitologia...
do amor e da pureza...
da singularidade...
a procura da tão sonhada...
"FELICIDADE"

(Mário Francisco Giaxa)

Veleiros de Papel



Há no ar uma sede
ferindo a alma dos pescadores,
roendo barcos
e velas em lance de rede.
O homem pelas sebes
Caminha,
recolhendo estrelas
entre as mãos - no céu.
Nas ribanceiras,
crianças empalmam rios,
plantam neve nas colinas
em brancas tendas de areia.
O cansaço dos inocentes
põe pedras nos olhos,
fere de morte os covardes,
desmonta velhas embarcações.
Se nada segues
pouco vale o destino,
a morte cavalga veloz
sempre a caminho.
O homem vive
de pescar o tempo:
ora em veleiros de papel,
ora em veleiros de vento.

(Onévio A. Zabot)

sábado, 29 de outubro de 2011

Os Poemas

Os poemas não nascem selados.
Eles cantam, dançam, voam
Tantas vezes inebriando as margens
das páginas de quem os escreveu...

Estes poemas não me pertencem.
Nasceram livres,
Fiéis aos olhos de cada continente
Onde lançam âncoras silenciosas...

Estes poemas são flores
no vaso, no campo, nos barcos
Estes poemas são teus!

É qualquer alquimista à meia-noite,
É uma vela na soleira da porta,
São segredos do deserto meu...

Com o passar dos anos,
escorre a tinta pelas mãos,
Éter, fogo, asa ritmada.
Este poema vaga
Sob a luz
de um velho lampião...

(Márcia Cristina Lio Magalhães)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Discurso Vazio


Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero
há calma e frescura na superfície intata
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros.

Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Absorto

Amo-te, simplesmente, amo-te
A cada palavra não dita, perdida,
entre os devaneios do meu desejo

Amo-te na gestação d'um verso,
na sombra de um sorriso,
no silêncio que antecede o beijo

Amo-te na face oculta de cada flor,
na estrela invisível ao meu olhar,
na onda a quebrar numa praia deserta

Amo-te no tempo que já passou,
no instante seguinte de minha morte
Amo-te na hora mais incerta

Amo-te assim tão completo e atento
que não apenas em meu peito
guardo-te também no esquecimento

(Marcelo Roque)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Na contramão



Posso não olhar o mundo
fazer um faz-de-conta da vida
não perceber, mesmo percebendo
quando você passa e descompassa
minhas certezas tolas

Preciso não querer tanto
algo mais bonito que um encontro
mais eterno que todos os arrepios
e todos os caminhos que te levam
nesses desencontros

Posso não abrir as cortinas
e o coração para cada amanhã
tenho procurado aprender coisas novas
se há quem viva para o futuro, vivo
para voltar

Preciso esquecer o que ainda é difícil,
e insiste nascer impossível te afastando
dos meus olhos, da minha rua,
do que ainda pode ser, por um instante,
pra sempre

(Cáh Morandi e Priscila Rôde)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ideal



Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vênus de cintura estreita…

Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortas entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita…

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que se dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino…

E como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo…

(Antero de Quental)

Prece

Dá-me Senhor dos Ventos...
um amor novo
amor posto à prova
que me renove feito primavera
que me remova me arremesse
me tire os pés do chão...me arranque
e me replante em carne viva.

Dá-me Senhor das Águas...
um amor novo
que refaça os sonhos em desalinho
que pesque pedaços de longa espera
que desafogue a alegria
que resgate o perdão
seu segredo...sua curva...seu caminho.

Dá-me Senhor da Luz...
um amor novo
que incendeie meu escuro
que estabeleça o sorriso
que me recomponha inteira
carne osso alma e clarão.

Dá-me Senhor de Tudo...
O calor de largos abraços
circulando esses estreitos braços largados
se deixando embalar...
numa divina sensação de ter renascido prá vida.

(Rosy Moreira)

Preciso Dizer que te amo

Quando a gente conversa
Contando casos, besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei que hora dizer
Me dá um medo, que medo...

Eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
E eu preciso dizer que eu te amo
Tanto!

E até o tempo passa arrastado
Só pra eu ficar do teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo...

É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo, tanto!

Eu já nem sei se eu tô misturando
Eu perco o sono
Lembrando cada riso teu
Qualquer bandeira
Fechando e abrindo a geladeira
A noite inteira...

Eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo, tanto!

(Cazuza/Bebel Gilberto)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Alma


Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.

(Fernando Pessoa)

domingo, 23 de outubro de 2011

Apresentação


Aqui está a minha vida- esta areia tão clara
com desenhos
de andar dedicados ao vento.

Aqui em minha voz- esta concha
vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está a minha
dor- este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui
está a minha herança- este mar solitário,
que de um lado era amor e, do
outro, esquecimento.

(Cecília Meireles)

sábado, 22 de outubro de 2011

Espero-te


Amo-te em cada beijo que não te dou,
em cada olhar que perco por sobre as nuvens,
e em cada verso que me escapa por entre os dedos
Amo-te nos gritos do meu silêncio,
nas noites que não têm fim,
e em cada lágrima que teima em não cair
Amo-te nas lembranças que já nem me lembro,
nas cinzas de todas as horas,
e nas dores que irei sentir
Amo-te assim feito um louco,
e feito louco,
busco-te ferozmente em cada palavra,
em cada objeto,
em cada mísero grão de tempo
Amo-te, e por amar-te tanto,
espero-te,
ainda que nunca me ouças chamar,
e ainda que nunca tenhas partido

(Marcelo Roque)

Felicidade

Deixei amores no passado
Sabores que não foram degustados
Este instante me custa tão caro
Como um diamante raro.

Não choro pelo que foi embora
Culpas ou tristezas agora
Semeio sim, a alegria de outrora
De ficar para sentir estas horas.

Ontem, é tão longe como saudade
Hoje, daqui a pouco vira antiguidade
Quero flores e sorrisos no meu jardim.

Retirei os espinhos, mas deixe o capim
Para concentrar o desabrochar da beleza
Foram escolhas caminhos para certeza.

(Henrique Rodrigues Soares)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Poeta

Mergulha na alma e no pensamento
Para extrair de dentro o sentimento
Produz respostas, promove reflexões
Provoca reviravolta nas emoções

Assim ele é um intruso,
Ultrapassa os limites da matéria
Com sensibilidades penetra toda esfera
Extraindo lágrimas e contentamento

Assim ele vê através das sombras
Excedendo o limite da razão
Por adentrar no âmago do coração

Ele arranca aplausos
Cala as palavras
Através de simples dizeres
Expõe todos seus saberes.

Encanta, causa espanto
Deixa sempre uma interrogação
Para os que o Lêem
Sem saber o certo, se escreve
Emoções sentidas
Ou sentimentos de outras vidas.

[Ataíde Lemos]

20 de Outubro - Dia do Poeta

Meus Parabéns à todos os Poetas e Poetisas!!!

Universo do Poeta

O poeta quando um verso escreve,
ao mundo inteiro emudece.
As palavras sem fronteiras,
ecoam no tempo,
em suave prece!
Seu Cálice Sagrado,
Trazendo a paz...
Segredos e mistérios se revelam,
em linhas escritas,
que a sua mente rege,
feito um maestro
de soberbas emoções!
Santa ou profana
guerra de sentimentos,
amores, sonhos,
alegrias ou lamentos,
e mesmo sem glórias,
lutam em silêncio!
Ah, Poetas!
Seriam Anjos, Loucos ou Guerreiros?
Usando como armas de combate,
seus poemas e sonetos.
Imortais em majestoso
............UniVerso!

[Reggina Moon]


20 de Outubro - Dia do Poeta

Meus Parabéns à todos os Poetas,

deixando minha admiração em uma singela homenagem!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Vida de Poeta

Até onde vou, todo mundo sabe,
Vou ver se ainda estou na esquina,
Antes que essa poesia louca acabe,
E eu já não saiba a que ela se destina.

O coração no peito rufa, bate,
Escoiceia e vai ao encontro da rima,
Como um cão que pra própria cauda late,
E dá voltas, e, em círculos, gira.

Talvez esse lirismo que me invade
E me leva a escrever linha após linha
Seja só ego e o cúmulo da vaidade.

Pode ser também apenas a idade,
Lindezas que o tempo na gente inspira,
Só depois de muita espera na fila!

(Antonio Wojciechowski)

Lugar ao Sol

Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: "Não sujes
a toalha"; "Não comes a maçã?"
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.

(Eugénio de Andrade)

Guardados de Infância


Atenção: Compro gavetas,
armários, cômodas e baús.
Preciso guardar minha infância:
os jogos de amarelinha,
os segredos que me contaram
lá no fundo do quintal.

Preciso guardar minhas lembranças:
as viagens que não fiz,
ciranda, cirandinha
e o gosto de aventura
que havia nas manhãs.

Preciso guardar meus talismãs:
o anel que tu me deste,
o amor que tu me tinhas
e as histórias que eu vivi...

(Roseana Murray)

domingo, 16 de outubro de 2011

Caminho à noite

Pé ante pé na escuridão vou pondo:
imensa e mansa me rodeia a noite.
Junto ao úmido muro vou molhando,
no musgo aljofarado mão e rosto.

Em sombra contra os ares e as estrelas
o pé de acácia embala-se;
no longe reluzem luzes
e o perto eu mal consigo perceber.

Com seu mágico fio, o amor faz vir
até meu coração toda a distância:
as Plêiades e a Estrela-Polar chamam
ao céu os seus irmãos.

Ao mundo todo eu me sinto ligado,
a toda forma de vida eu me abro;
de novo achei a estrada
que me integra no plano do universo.

(Hermann Hesse)

Noite de Chuva


Chuva...Que gotas grossas!... Vem ouvir:
Uma...duas...mais outra que desceu...
É Viviana, é Melusina, a rir,
São rosas brancas dum rosal do Céu...

Os lilases deixaram-se dormir...
Nem um frémito...a terra emudeceu...
Amor! Vem ver estrelas a cair:
Uma...duas...mais outra que desceu...

Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
Que essa fala de amor seja um gemido,
Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito...

Ah! deixa à noite o seu encanto triste!
E a mim... o teu amor que mal existe,
Chuva a cair na noite do meu peito!

(Florbela Espanca)

Trajeto

Pressenti você por onde andei:
nas páginas da história que reli,
nos respingos da lua que bebi,
em meio às contas dos rosários que rezei.

Bem que eu tentei mudar de assunto:
alterei o roteiro da viagem,
colhi alfazemas na paisagem,
dedilhei valsas, decorei poemas.
Você veio junto.

Apostei no vento que chegou de fora
e levou meu passado embora
numa lufada larga e radical.

Mas quando chego ao destino,
ouço saudades na frase de um violino
e percebo seu beijo em meu porto final.

(Flora Figueiredo)

Poemas ao Acaso



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